sexta-feira, 13 de janeiro de 2017


Educação a Distância: Uma “roupa velha” com “remendo novo”?

Quem conheceu ou já ouviu falar em cursos por correspondência sabe bem que Educação a Distância (EaD) é uma modalidade de ensino muito antiga.  No Brasil essa modalidade de ensino surgiu no início do século XIX com a oferta de cursos profissionalizantes por correspondência. Entre as instituições pioneiras na oferta de cursos por correspondência no Brasil estão o Instituto Monitor (1939) e o Instituto Universal Brasileiro (1941).  Naquela época o aluno recebia, por meio dos Correios, o material impresso em sua casa, realizava o curso conforme as orientações contidas no material e encaminhava as atividades avaliativas para a instituição, que as corrigia e encaminhava o certificado para o aluno.  
 Embora não seja uma modalidade de ensino nova, nos últimos tempos a EaD está crescendo exponencialmente em razão do surgimento e constante evolução das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs).  Apoiadas nessas novas tecnologias, muitas instituições de ensino passaram e estão passando por grandes transformações no modo como ofertam seus cursos e/ou disciplinas.
 O avanço da tecnologia motivou a adoção da EaD como possibilidade de suprir lacunas da educação presencial com ganhos para os diversos atores envolvidos, tais como: 
  • Otimização do tempo do professor e do aluno, uma vez que na EaD o processo de ensino e aprendizagem independe da coincidência das variáveis tempo e espaço;
  • maior flexibilidade e autonomia para o aluno, uma vez que o mesmo pode definir seu próprio ritmo de estudo;
  • redução de custos para a instituição e para o aluno;
  • contribuição para a democratização do ensino e redução do déficit educacional.
 Se considerarmos a atual conjuntura de uma sociedade baseada em informação e na explosão do conhecimento, aliada a um mercado cada vez mais exigente com a qualificação dos profissionais e à “falta de tempo” que nos sufoca cada dia mais, a EaD pode representar muitos outros ganhos para a instituição, para o aluno, para o professor e para a sociedade como um todo.
 Entretanto essa nova forma de ensinar e de aprender exige de algum modo uma mudança de postura de todos os atores envolvidos no processo. Por um lado, as instituições de ensino precisam repensar o modelo pedagógico adequando-o a essa modalidade de ensino que pressupõe o uso de tecnologia da informação e comunicação como um elo entre professor e aluno. É importante considerar que a incorporação das tecnologias ao universo escolar deve possibilitar a vivência de diferentes experiências e ampliações metodológicas nas instituições de ensino, estimulando transformações significativas nas práticas pedagógicas. Além disso, os chamados Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVAs) devem oferecer aos atores envolvidos, recursos e ferramentas que possibilitem a ampliação das possibilidades de ensino e de aprendizagem.
 Por outro lado, professor e aluno, atores principais desse processo também devem assumir papéis um pouco diferentes do modelo presencial, muitas vezes conteudista e tecnicista em potencial. A meu ver eis aqui um grande desafio: aluno e professor atuarem de modo que o professor seja cada vez mais um designer da aprendizagem e o aluno cada vez mais autônomo e protagonista de sua aprendizagem.
 É preciso ter em mente também que embora a tecnologia possa colaborar para romper barreiras do déficit educacional, ela é um meio e por si só não muda cenários e não resolverá todos os desafios de democratização e de qualidade da educação no Brasil. Professor e aluno continuam sendo os atores principais do processo de ensino e aprendizagem. O aluno como protagonista, o centro do processo, o professor como mediador e facilitador do processo e a tecnologia como instrumento que disponibiliza recursos e ferramentas que possibilitam a comunicação, a interação, a interatividade e a construção do conhecimento de forma colaborativa.
 Nesse contexto, há que se cuidar para que a EaD não seja mais um remendo novo em uma roupa velha. Ou seja, para que a EaD não seja um modelo que reproduz o modelo de ensino presencial, muitas vezes conservador e linear, em que o professor “entrega” o conteúdo e o aluno “recebe” sem muitas vezes entender e/ou identificar significados para a sua vida.
 Por fim, deixo aqui uma questão para nossa reflexão: O modelo de EaD que estamos praticando na atualidade contribui de fato para ampliar as possibilidades de aprendizagem tornando-a mais acessível, colaborativa e significativa para o aluno,ou é um modelo que favorece o isolamento e reproduz  nos ambientes virtuais de aprendizagem o modelo de ensino presencial muitas vezes linear, no qual o professor é  colocado no centro do processo como único detentor do conhecimento e o aluno um mero receptor de informações?
Simone Sousa, Mestre em Gestão da Informação, Especialista em Tecnologia e Educação.

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